Tóquio – A honestidade e os valores éticos do povo japonês são conhecidos mundialmente. Se você perder ou esquecer um objeto de valor em um local público, a chance de recuperá-lo é muito grande. No entanto, na contramão da honestidade exemplar, o furto de guarda-chuvas parece ter um nível de tolerância diferenciado por parte da sociedade.
Na semana passada, a Câmara de Comércio da cidade turística de Hakodate (Hokkaido) anunciou que cerca de 1.100 guarda-chuvas que foram disponibilizados gratuitamente para turistas não foram devolvidos. Ao retirar o objeto, o visitante era avisado de que teria que devolvê-lo em algum posto de coleta, mas apenas 400 dos 1.500 guarda-chuvas comprados pelo governo local foram devolvidos.
Com sistema semelhante, a fabricantes de bebidas DyDo conduziu, no ano passado, um experimento na cidade de Osaka, onde disponibilizou guarda-chuvas para uso gratuito em 50 máquinas de venda automática. Mesmo sem comprar nenhuma bebida, qualquer pessoa poderia retirar o objeto desde que o devolvesse no mesmo local ou em outra máquina participante da campanha.
A empresa não divulgou o resultado do experimento, mas, após a grande publicidade gerada pela campanha, anunciou que irá expandir o “aluguel gratuito” de guarda-chuvas para 170 máquinas espalhadas em pontos estratégicos da região de Kansai.
Evitando furtos
O desaparecimento de guarda-chuvas é tão comum — principalmente nos grandes centros urbanos em dias chuvosos — que sites da internet e programas de TV passaram a abordar o tema com humor ao dar dicas de como evitar que seu guarda-chuva seja furtado.
Usar guarda-chuvas com enfeites infantis e cores chamativas é uma das dicas mais compartilhadas nas redes sociais. De acordo com essa teoria, o ladão se sentiria envergonhado em pegar um guarda-chuva de uma criança ou temeria que o objeto seria rapidamente identificado pela aparência diferenciada.
Escrever frases “amaldiçoadas” no cabo também pode evitar que um ladrão supersticioso toque no objeto. “A pessoa que roubar esse guarda-chuva irá morrer”, é a frase mais usada para afugentar os ladrões. Adesivos com frases criativas, como “este guarda-chuva pertence à polícia” e “este guarda-chuva pode ser rastreado por GPS” também podem ser comprados pela internet.
“Bem comum”
Alguns japoneses, incluindo o psicólogo Yoshihito Naito, do site Culturezine, acreditam que, na maioria dos casos, o “furto” não passa de um simples engano. Como a maioria dos guarda-chuvas são muito parecidos, algumas pessoas distraídas acabam pegando o objeto de outra pessoa por engano. Isso ocorre principalmente na saída de lojas, hospitais e repartições públicas, onde não é permitida a entrada com esse tipo de objeto.
Essa argumentação, no entanto, não exclui o fato de que muitos se sentem no direito de usar o objeto, mesmo não lhes pertencendo. De acordo com Naito, “algumas pessoas não se sentem culpadas em pegar um guarda-chuva encontrado na rua em um dia de chuva por pensarem que se trata de um bem para uso comum”.
Muitos dos guarda-chuvas vendidos no Japão são baratos (cerca de ¥500) e não são fabricados para durarem muito tempo, passando a impressão que são objetos descartáveis. Naito explica que “ao comprar um guarda-chuva barato, a pessoa já está ciente que ele logo será descartado ou levado por outra pessoa”.
Em muitas cidades do país, descartar um guarda-chuva indevidamente no lixo comum pode render multa. As rígidas regras para o descarte desse tipo de objeto incentivam muitas pessoas a abandonarem guarda-chuvas em trens e entradas de lojas de conveniência, na esperança que eles sejam “furtados”.
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