Uma cena cotidiana em Osaka ajuda a ilustrar um problema que se espalha pelas salas de aula do Japão. Ao receber uma redação em inglês com nível surpreendentemente alto de um aluno do ensino fundamental que tinha dificuldades no idioma, o tutor Shunya Kamei pediu que o menino refizesse o texto buscando as palavras no dicionário. Diante da folha em branco, o jovem acabou confessando que tinha usado o ChatGPT.
O relato reflete um cenário cada vez mais comum no país, conforme publicação no Mainichi Shimbun. O avanço da inteligência artificial generativa tem levado estudantes a entregar tarefas escolares e acadêmicas geradas por máquinas, sem reflexão ou questionamento prévio sobre o conteúdo.
No ensino superior, os números confirmam a tendência. Uma pesquisa realizada em 2025 pela professora Sachiko Kimura, da Universidade Dokkyo, apontou que 36% de 535 universitários entrevistados entregaram trabalhos de tradução no formato copiar e colar, sem fazer qualquer alteração nos textos gerados por IA. O estudo revelou ainda que os próprios alunos adeptos dessa prática reconhecem que sua capacidade de raciocínio diminuiu. Diante disso, a pesquisadora defende a reformulação urgente dos métodos de avaliação acadêmica.
O impacto atinge inclusive disciplinas técnicas. Na Escola de Pós-Graduação da Digital Hollywood University, o professor de programação Daisuke Yamazaki passou a proibir o uso de IA no primeiro mês de curso. Inicialmente, Yamazaki considerou incentivar o uso ativo da tecnologia, mas mudou de ideia ao observar o comportamento da turma. Segundo ele, alguns alunos começaram a aceitar códigos que não entendiam, sem questionar, ou achavam que já tinham aprendido a programar. O docente ressaltou que esses estudantes tendiam a ter apenas uma compreensão superficial do conteúdo, acrescentando que a prioridade é pensar por si mesmo, se esforçar para refletir sobre as coisas e não depender da IA desde o início, abandonando o pensamento crítico.
As observações dos educadores encontram respaldo em pesquisas científicas. Um estudo das universidades Carnegie Mellon e Oxford revelou que usar IA generativa por apenas 10 minutos já é suficiente para reduzir a perseverança humana e a capacidade de resolver problemas de forma independente. Nos testes, quando a ajuda da tecnologia era retirada, os participantes que dependiam do sistema apresentaram desempenho inferior e o dobro de desistências em comparação aos que trabalharam sozinhos desde o início.





