Atualizado em: 03/04/2024 12:32
Peço desculpas, pois não abordarei a comunidade brasileira no Japão ou as atividades da NPO Sabja. Desta vez, falarei sobre a pobreza menstrual e, consequentemente, a dignidade feminina no Brasil.
Esse assunto veio até mim por meio da minha filha Melissa que, antes de falecer, iniciou o projeto contra a pobreza menstrual em Araçatuba (SP). Ela deixou um pedido em carta para que eu prosseguisse com a campanha.
Segundo dados da ONU, uma entre dez meninas deixam de ir à escola durante o período menstrual. No Brasil, esse número é ainda maior: uma entre quatro adolescentes falta às aulas por não ter absorventes higiênicos. Durante a minha pesquisa, entendi que a falta de acesso aos absorventes no Brasil se deve principalmente pelo fator financeiro, pois é um item caro, apesar de ser de primeira necessidade.
No Japão, o absorvente higiênico é acessível, e mesmo assim, as prefeituras doam, mediante pedido e comprovação de dificuldade financeira.
Melissa iniciou a campanha juntamente com as amigas. Cada uma, com recursos próprios, compravam absorventes e deixavam dentro dos banheiros femininos das escolas públicas de Araçatuba.
Para ela, era injusto que uma jovem chegasse ao ponto da evasão escolar por não ter acesso ao absorvente higiênico no período menstrual. Algumas adolescentes chegam ao ponto de usar papéis e panos sem quaisquer critérios higiênicos, ficando assim, vulneráveis à infecções diversas.
Quando parei para pensar sobre o assunto, me dei conta do quão complexo é a situação, gerando um trauma de humilhação iniciado na adolescência.
Liderei uma campanha de arrecadação de absorventes no Japão. O montante arrecadado foi transportado pela Suzan Mudanças e entregue ao Fundo Social de Araçatuba, conforme o pedido da Melissa.
Por enquanto, não tenho condições psicológicas de dar andamento à campanha, mas ela continua, pois a Ordem dos Advogados de Araçatuba assumiu a viabilidade, mobilizando assim, muitas ações sociais para proporcionar a dignidade feminina.
Melissa deixou um legado, pois em novembro de 2022 foi aprovada a Lei Municipal 0130/2022, chamada de Lei Melissa Kaori, onde os direitos femininos contra a pobreza menstrual está salvaguardada.
Acredito que, muito mais importante que a doação em si, é a conscientização da problemática.
Foto: iStockphoto
Artigo publicado na seção “Saúde em Dia” pelo Serviço de Assistência aos Brasileiros no Japão (Sabja) na edição 580 da Alternativa