Chiryu, Japão – O ciclo de palestras Summit Japan BR, realizado no domingo (7) em Chiryu (Aichi), teve como ponto alto a fala da atriz Danni Suzuki. Mas antes dela, outros membros da comunidade tiveram a oportunidade de palestrar sobre muitas situações que emperram o avanço dos brasileiros no país.
O professor da Faculdade de Sociologia da Musashi University, Angelo Ishi, ressaltou os valores que os brasileiros têm trazido para o Japão. “Nós não ameaçamos a cultura japonesa, mas a enriquecemos”, afirmou, citando que ao longo dos mais de 30 anos do movimento decasségui, essa comunidade passou por várias fases, hoje sendo tratada como de imigrantes que decidiram se estabelecer no Japão.

Ishi, que é colaborador da Alternativa, citou que os brasileiros no Japão superaram as três maiores crises dos últimos anos, como a financeira mundial entre 2008 e 2009, quando muitos perderam emprego; a de 2011, quando ocorreu o terremoto, tsunami e o acidente na usina nuclear de Fukushima; e a mais recente, em 2020, com a pandemia de coronavírus.
“Em 2011, o terremoto e tsunami ocorreram em uma sexta-feira. Mas no domingo seguinte os brasileiros estavam entre os primeiros a levar mantimentos, sua solidariedade às pessoas na região de Tohoku. “Fazendo isso, ao mesmo tempo eles transmitiram a mensagem de que não somos estrangeiros, mas membros da sociedade japonesa”, comentou.
Ishi é consultor do governo japonês em relação às comunidades estrangeiras e afirmou que o sucesso da atriz Danni Suzuki abre portas para outros orientais no Brasil. Mas explicou:
“O sucesso individual ajuda a alavancar o sucesso de outros. O futuro dos nossos netos e bisnetos dependerá de nossas ações hoje.” (Angelo Ishi)
A diretora de escola de idiomas, Mari Minatti, afirmou em sua palestra que a comunidade brasileira ainda vive em uma bolha. “Quando você decidiu ser trabalhador de fábrica, sendo que no passado sonhava em ser médico, engenheiro, professor ou ter alguma outra profissão? Estou no Japão há cinco anos e o maior choque cultural que sofri foi ver a comunidade brasileira no Japão nessa bolha, sem sonhar”, relatou. Um aluno que diga para Mari que deseja estudar em uma faculdade no exterior é motivo de alegria. Mas para que isso ocorra é preciso seguir algumas etapas. “Estudei em uma das melhores escolas do Canadá, mas o que vejo são pessoas querendo pular etapas”, disse.

Certo dia, uma aluna sua pediu ajuda para compor um discurso em sua formatura na escola onde estudava. Mari sugeriu falar sobre a importância de ir para a faculdade. Mas para seu espanto, a aluna disse constrangida que, na turma de formandos, apenas ela e outras duas seguiriam para o ensino superior.
“Trabalhar em fábrica não é vergonha, mas é preciso também ter um objetivo na vida. Vocês têm sonhos? E os seus filhos? Sabem o que eles querem? Incentive seus filhos a quererem algo mais, pois já passou da época dessa bolha estourar.” (Mari Minatti)
A jovem Gabriella Martins Neo foi convidada de última hora nas andanças de Danni Suzuki pelo Japão, pelo problema que a estudante vem enfrentando. O tema da palestra de Gabriella foi “Você já sentiu medo do seu futuro?”, baseada na história de uma amiga que está sofrendo ijime (maus-tratos) na escola.
“Mesmo com os professores tentando ajudar, essa amiga considerou cometer suicídio. Felizmente ela não fez nada disso. Mas existem outros que se mataram por causa do bullying (termo inglês para maus-tratos)”, explicou.

Para Gabriella, existe um caminho para acabar com esta prática tão nefasta. Ela começa pela empatia, “para entender o que o outro sente”, lembrando que isso vale para todas as situações da vida, como ocorre também nas fábricas. Outro ponto é a solidariedade, para ajudar a pessoa em dificuldade a resolver um problema. E o terceiro ponto ensinado por ela é o respeito, ao considerar o direito do outro pensar e ser de maneira diferente.
“Então, você já sentiu medo do seu futuro? Se não pararmos com isso, vamos viver em um ciclo vicioso, fazendo com que as pessoas cresçam inseguras. Para mim, a minha amiga é uma pessoa incrível.”
“Então, você já sentiu medo do seu futuro? Se não pararmos com isso, vamos viver em um ciclo vicioso, fazendo com que as pessoas cresçam inseguras. Para mim, a minha amiga é uma pessoa incrível.” (Gabriella Martins Neo)
A empresária no ramo de beleza, Priscilla Kajihara, falou sobre o poder feminino, mas que antes de atingir esse poder, é preciso superar um dos maiores medos, que é o da rejeição. “Eu perdi o meu medo quanto tive câncer. E isso me fez ver que a morte chegou perto de mim. Foi um câncer muito agressivo e eu estava sem minha família. Contei apenas com o apoio do meu marido, que foi essencial”, disse.

Além da mastectomia que precisou fazer, cirurgia que consiste na retirada de uma das mamas atingidas pelo câncer, Priscilla precisou passar por outros 11 procedimentos em um dos braços graças ao avanço da doença. “A médica me disse que eu não iria mais mexer esse braço. O que eu fiz? Joguei fora o que ela falou. Hoje eu trabalho usando esse braço realizando um trabalho muito delicado, de precisão.
“Depois que aprendi que a vida é um sopro, me libertei da culpa e do medo. Enfim, é você quem decide o que fazer da sua vida.” (Priscilla Kajihara)
Em sua palestra, Ed Sugimoto relatou sua jornada para se estabelecer como empreendedor no Japão, graças ao esforço para aprender japonês. Ele é programador autodidata de computador e fundou a Ideabox It em 2020.

“Trabalhar na fábrica dá dinheiro, mas o dinheiro você tem e pode perder. O conhecimento ninguém rouba. Os japoneses gostam dos brasileiros para trabalhar. Por isso é importante aprender japonês. Se eu consegui, outros conseguirão sair da bolha em que estamos, para conquistar a liberdade”, ensinou. Hoje, além de se dedicar a criar programas de computador, ele gerencia uma equipe de engenheiros brasileiros.
“Trabalhar na fábrica dá dinheiro, mas o dinheiro você tem e pode perder. O conhecimento ninguém rouba.” (Ed Sugimoto)
Todas as palestras foram mediadas pelos jornalistas Silvio Mori, Ewerthon Tobace e Erika Okazaki.
Foto: Alternativa
Os palestrantes e organizadores do Summit Japan BR após o encerramento do evento





