Toyohashi, Japão – Em fevereiro de 2025, o Grupo Sankyo celebrou um marco histórico: seus 60 anos de fundação. Criada em 1965 pelo avô do atual presidente, Noboru Mihara, a Sankyo nasceu em meio a um cenário econômico instável no Japão, mas logo encontrou oportunidades durante o boom de crescimento pós-guerra. Desde então, a empresa vem se consolidando como referência no setor de recursos humanos, especialmente no acolhimento e apoio à comunidade brasileira no Japão.
A conexão entre a Sankyo e os brasileiros descendentes de japoneses começou ainda nos anos 1980, a partir da relação pessoal da família Mihara com a comunidade nikkei no Brasil. O que começou com a viagem de um pai jogador de vôlei, evoluiu para uma sólida rede de apoio, com a criação de um escritório em São Paulo em 1986 e o contínuo esforço para estruturar ambientes de trabalho e moradia para os brasileiros que vinham ao Japão em busca de uma vida melhor.
“A partir da década de 1980, começou a aumentar o número de nikkeis de primeira geração vindo ao Japão como dekasseguis. O ponto de partida para nosso forte vínculo com os brasileiros descendentes de japoneses foi uma viagem do meu pai, que jogava vôlei. Ele foi ao Brasil como capitão da seleção japonesa e, ao interagir com os nikkeis locais, ouviu muitos expressarem o desejo de vir trabalhar no Japão em busca de uma vida melhor”, disse Mihara.

“Ele contou isso ao meu avô, que então foi ao Brasil, onde conheceu muitos colaboradores nikkeis e passou a estruturar o ambiente necessário para que eles pudessem vir ao Japão trabalhar temporariamente”, afirmou.
Segundo Mihara, em 1984, com o Acordo de Plaza, houve um agravamento da economia brasileira e uma valorização repentina do iene, o que levou ao aumento do número de nikkeis interessados em vir trabalhar no Japão. “O Brasil vivia uma hiperinflação, e o salário lá era cerca de 1/20 do salário japonês. Foi por essa época que começou a haver uma certa permissão para que filhos de nikkeis de primeira geração (com dupla nacionalidade), bem como esposas e filhos, pudessem acompanhá-los ao Japão.”
Em 1990, houve a reforma da Lei de Imigração, que flexibilizou as regras de entrada para nikkeis. Somado à prolongada deflação causada pelo colapso da bolha econômica, muitas empresas de manufatura no Japão passaram a transferir a produção para o exterior e a reduzir a contratação direta de funcionários, aumentando o uso de empresas de recursos humanos, como a Sankyo.
“Muitos brasileiros vieram ao Japão para trabalhar. Graças a isso, e com o apoio deles, nossa empresa também conseguiu crescer”, disse Mihara.
Entretanto, em 2008, a Sankyo enfrentou a maior crise da história da empresa com o colapso do Lehman Brothers, que reduziu seu porte em um quinto e o número de brasileiros no Japão caiu de 330 mil para menos de 200 mil. “Apesar disso, graças mais uma vez ao apoio dos nikkeis, conseguimos nos recuperar e alcançar resultados até melhores do que antes da crise.”
Hoje, ao completar seis décadas de trajetória, a Sankyo não apenas reconhece o papel fundamental dos trabalhadores brasileiros nesse caminho, como também se prepara para os novos desafios que se apresentam: a diminuição da população ativa, o envelhecimento da mão de obra e as barreiras enfrentadas pelos yonsei (quarta geração).
“Queremos encarar de frente a questão do envelhecimento dos trabalhadores da terceira geração, que tanto nos ajudaram. Nosso objetivo é nos tornarmos uma empresa que possa empregar até os 70 anos de idade e continuar crescendo junto com todos vocês”, ressaltou o presidente da Sankyo.
Em entrevista à Alternativa, Noboru Mihara compartilha sua visão sobre o passado, os desafios do presente e as perspectivas para o futuro, destacando o valor das conexões humanas em um mundo cada vez mais tecnológico — e reafirmando seu compromisso de caminhar lado a lado com os trabalhadores brasileiros rumo às próximas décadas de história.
Alternativa: Fale sobre o início de sua trajetória na Sankyo:
Noboru Mihara: Após me formar na universidade, comecei trabalhando em uma empresa comum, sem planos de entrar para o negócio da família. Com o tempo, porém, passei a refletir sobre a história construída pelo meu avô e pelo meu pai, e percebi que não podia deixar isso se perder. Foi então que decidi voltar e assumir essa responsabilidade como a terceira geração da presidência. Quando entrei, nem sabia direito o que a empresa fazia. Comecei na fábrica, na linha de produção, igual a todos: mesmo horário, mesmo salário, sem privilégios. Trabalhava como operário, fazia o que aparecia, e fui aprendendo tudo na prática, desde as tarefas mais simples.

Alternativa: Na sua visão, qual a importância dos brasileiros descendentes de japoneses no mercado de trabalho atual, tanto no Japão quanto dentro do Grupo Sankyo?
Noboru Mihara: Como possuem o visto de residência permanente ou de longa duração sem restrições de trabalho, são capazes de contribuir para uma gestão empresarial mais ágil. São figuras insubstituíveis e absolutamente essenciais na transmissão de habilidades e conhecimentos técnicos dentro das empresas japonesas. São parceiros com os quais a Sankyo deseja continuar caminhando lado a lado no futuro. São pessoas que preservam a ordem e os valores japoneses, os quais muitos japoneses já perderam.
Alternativa: Que tipo de apoio é oferecido aos trabalhadores para ajudá-los a se adaptar à vida e ao ambiente de trabalho no Japão?
Noboru Mihara: Oferecemos apoio nos trâmites de infraestrutura da vida cotidiana (como registro de residência, saúde, contas etc.), supervisores que acompanham de perto o ambiente de trabalho, além do fortalecimento da abertura de novas empresas e setores para gerar mais oportunidades de emprego e organização e participação em diversos eventos.
Alternativa: Atualmente, quais são os setores ou áreas com maior demanda por mão de obra?
Noboru Mihara: Devido à queda da população economicamente ativa no Japão, há escassez de mão de obra em todos os setores, independentemente da área. O aumento dos salários criou um mercado favorável para os trabalhadores. Como leva tempo para aceitar e treinar novos trabalhadores, especialmente em grande quantidade, o setor fabril é o que tende a enfrentar mais dificuldades.
Como consequência, o aumento salarial tende a beneficiar primeiro os trabalhadores com alta qualificação, habilidades ou certificações. Já os cargos menos qualificados também terão aumento salarial, mas com um ritmo menor.
Portanto, além de expandir os trabalhos tradicionais de fábrica, a Sankyo pretende ampliar também o número de vagas em áreas de serviços mais diversificadas, onde inclusive trabalhadores seniores possam atuar.
Alternativa: Até agora, quantas pessoas já passaram pela Sankyo?
Noboru Mihara: Já perdi a conta. Com certeza é um número absurdo. Estamos falando de muito mais do que dez ou vinte mil pessoas. Afinal, são décadas de história. E não estamos falando apenas dos trabalhadores temporários. Inclui também os funcionários internos, pessoas que sustentam a empresa por dentro em todas as 21 filiais que temos em todo o Japão, além de um escritório em São Paulo.

Alternativa: O senhor tem planos para novos desafios daqui pra frente?
Noboru Mihara: Sim. Queremos continuar criando oportunidades de trabalho para os nipo-brasileiros. Considero isso a nossa missão. E por quê? Porque fomos sustentados por eles até aqui. Por exemplo, no sistema de emprego japonês atual, quando a pessoa chega aos 50 ou 60 anos, já falam em aposentadoria. Mas, na realidade, muita gente ainda está com saúde, cheia de energia. Claro, há quem tenha problemas de saúde, cada pessoa é um caso, mas eu vejo muita gente com mais disposição que nós.
“Quero criar ambientes onde essas pessoas possam continuar trabalhando. Hoje, o comum é encerrar a carreira com 60 ou 65 anos, mas eu quero construir locais onde se possa trabalhar até os 70, 80 anos.”
Alternativa: Isso seria ainda na indústria ou em outras áreas também?
Noboru Mihara: Não se limita à indústria. Pode ser em limpeza, transporte, outros tipos de trabalho. Ainda não temos algo definido, mas se procurarmos, há muitas possibilidades. A questão é: fazer ou não fazer. E eu quero fazer. Por exemplo, uma pessoa com 60 anos pode achar que o trabalho na fábrica já está pesado demais. Mas pode trabalhar duas ou três vezes por semana, ou só meio período. Existem empregos assim. E quero criar mais dessas oportunidades em diferentes áreas. Estou muito decidido quanto a isso.
Alternativa: Quais são os principais pontos fortes e características da Sankyo em comparação com outras empresas do setor?
Noboru Mihara: Estamos fortalecendo a contratação de gestores nipo-brasileiros. Isso representa nosso desejo de continuar desenvolvendo o negócio junto com os descendentes de japoneses. Acreditamos que, à medida que cresce a necessidade de aceitar trabalhadores estrangeiros para compensar a diminuição da população economicamente ativa no Japão, nossa maior força está no know-how adquirido ao longo de 60 anos de história sobre as dificuldades enfrentadas pelos estrangeiros que trabalham no Japão.
Alternativa: O visto para a quarta geração de descendentes de japoneses (yonsei) foi aprovado no Japão, mas ainda há restrições como idade e nível de proficiência no idioma. Você espera que o governo flexibilize essas exigências no futuro?
Noboru Mihara: Sim, esperamos que o governo flexibilize essas regras. Enquanto houver descendentes que queiram vir trabalhar no Japão, precisamos criar as condições para recebê-los. Mesmo que seja um processo lento, queremos contribuir para isso. Sei que é uma questão complexa, mas o mais importante é o ponto de partida. Cada geração — nissei, sansei, yonsei — tem uma relação diferente com o Japão. Muitos yonsei, por exemplo, se interessam pelo país por causa dos animes ou da cultura pop. Para mim, isso é válido. O importante é o interesse mútuo. Se alguém vem por gostar de anime e depois decide viver e trabalhar aqui, ótimo. Isso será positivo tanto para o Japão quanto para essa pessoa. Criar esse ambiente é essencial, especialmente num momento em que o país precisa de jovens dispostos a trabalhar.
Alternativa: Como foi a experiência de visitar o Brasil? E qual é a sua impressão sobre os brasileiros?
Noboru Mihara: Já visitei o Brasil duas vezes e percorri várias regiões. Percebi que, ao contrário do Japão, o país convive com uma grande diversidade de etnias e enfrenta desafios sociais bastante complexos. Compreendi melhor o sistema de emprego baseado no “modelo job-based”, e entendi por que muitos brasileiros desejam voltar ao Brasil para cursar uma universidade.
Notei também a clara desigualdade social, os problemas de segurança pública e a frequência de greves. Acima de tudo, fiquei profundamente impressionado ao ver o esforço das pessoas que, mesmo enfrentando mais de 30 horas de viagem, chegavam exaustas ao Japão em busca de trabalho. A vastidão das terras e a grandiosidade da natureza brasileira também me marcaram. Com esse entendimento mais profundo, cresceu muito em mim o respeito e a gratidão pelos pioneiros nipo-brasileiros.
Alternativa: Que mensagem o senhor gostaria de transmitir aos brasileiros que desejam trabalhar na Sankyo?
Noboru Mihara: Gostaria de agradecer mais uma vez de coração. É graças a vocês que conseguimos manter a empresa ativa por 60 anos. Queremos continuar crescendo juntos, olhando para o futuro. Acreditamos que manter esse projeto por 100 anos será a maior forma de retribuição que podemos oferecer a todos vocês. Vamos continuar desenvolvendo este negócio juntos. Contamos com seu apoio contínuo.





