Tóquio, Japão – O Japão se transformou em uma espécie de “paraíso do Mounjaro” para sul-coreanos que procuram o medicamento com o objetivo de emagrecer. A diferença de preço incentiva viagens ao arquipélago e já levou usuários das redes sociais a tratarem algumas clínicas japonesas como locais de referência para obter o produto.
O Mounjaro, nome comercial da tirzepatida, é um medicamento injetável administrado uma vez por semana. No Japão, as autoridades aprovaram o produto para o tratamento do diabetes tipo 2. No entanto, clínicas particulares também passaram a oferecê-lo, fora da indicação aprovada, como parte de programas de emagrecimento.
De acordo com uma reportagem da rede ANN, reproduzida pela emissora Nagoya TV, o número de sul-coreanos que viajam ao Japão para receber a prescrição cresceu nos últimos meses. Nas redes sociais da Coreia do Sul, usuários compartilham informações sobre hospitais e clínicas japonesas que oferecem o medicamento de forma relativamente simples e barata.
Uma mulher de cerca de 30 anos, moradora de Seul, contou à emissora que encontrou pela internet um hospital de uma cidade do interior do Japão apontado como um dos mais baratos do país. Quando compareceu ao local, ela viu outras sul-coreanas, principalmente mulheres de meia-idade, saindo com o medicamento.
A paciente afirmou ainda que o valor necessário para comprar a dose de 5 miligramas por três meses na Coreia do Sul permitiria adquirir a mesma quantidade no Japão, pagar as passagens aéreas e o hotel e ainda economizar dinheiro.
Entrada na Coreia do Sul pode infringir a lei
O baixo preço, porém, não elimina os riscos legais. Segundo a ANN, a Coreia do Sul proíbe, em princípio, a entrada de medicamentos desse tipo comprados no exterior.
Entre janeiro e maio deste ano, a Alfândega do Aeroporto Internacional de Incheon registrou 289 ocorrências relacionadas à entrada de Mounjaro e outros medicamentos. A fiscalização sul-coreana intensificou as apreensões diante do aumento das compras realizadas no Japão e em outros países.
Além disso, especialistas demonstram preocupação com a falta de acompanhamento após o retorno dos pacientes. Hiroaki Mamiya, professor associado da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Ritsumeikan, explicou à ANN que o médico deve ajustar gradualmente a dose e observar a reação de cada paciente.
Quando uma pessoa recebe a prescrição durante uma viagem e leva o produto para outro país, esse acompanhamento pode ser interrompido. Dessa forma, o paciente pode enfrentar dificuldades para obter atendimento adequado caso desenvolva efeitos colaterais.
Fabricante alerta para turismo médico e revenda
A redução do preço oficial do Mounjaro no Japão também despertou preocupação na fabricante. Em agosto, a Eli Lilly Japan afirmou que o medicamento passou a ter um dos menores preços entre economias de porte semelhante.
A empresa advertiu que essa diferença pode estimular o uso inadequado, ampliar o turismo médico e favorecer compras em grande quantidade para revenda no exterior. A fabricante também informa que a eficácia e a segurança do Mounjaro para fins estéticos, fora do tratamento aprovado para diabetes tipo 2, não estão confirmadas.
Em junho, o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão reforçou o alerta contra o uso de Mounjaro, Rybelsus e outros medicamentos semelhantes apenas para fins estéticos ou de emagrecimento. O órgão ressaltou que a utilização sem indicação adequada pode provocar danos inesperados à saúde.
Entre as reações registradas na documentação oficial do Mounjaro estão náusea, vômito, diarreia, prisão de ventre, dor abdominal e perda de apetite. Também existem riscos de complicações mais graves, como pancreatite aguda e hipoglicemia, dependendo das condições do paciente e da combinação com outros medicamentos.
O governo japonês também teme que a procura para emagrecimento prejudique o fornecimento a pessoas que realmente necessitam do produto para controlar o diabetes. Por isso, o ministério pediu que médicos e instituições de saúde confirmem a necessidade do tratamento, expliquem os possíveis efeitos adversos e mantenham condições para atender rapidamente pacientes que apresentem complicações.





