Atualizado em: 03/04/2024 14:13
Quioto, Japão – Shinji Aoba, responsável por um incêndio criminoso que tirou a vida de 36 pessoas em um estúdio de animação em Quioto, em 2019, foi condenado à pena de morte em sentença anunciada nesta quinta-feira (25) pelo Tribunal Regional de Quioto, informaram a NHK e outras emissoras de TV.
O tribunal reconheceu que Aoba, 45 anos, tinha a capacidade de discernir o certo do errado no momento do crime, afirmando que ele não estava em estado de insanidade nem tinha sua capacidade mental diminuída
Aoba admitiu ter colocado fogo ao espalhar gasolina no local, e expressou remorso, afirmando que foi longe demais. Ele alegou ter agido por acreditar que a Kyoto Animation plagiou um romance que ele havia enviado para um concurso.
A Promotoria Pública considerou o caso um massacre sem precedentes e com um número excepcionalmente alto de vítimas na história dos julgamentos criminais no Japão. Além da morte de 36 funcionários do estúdio, 32 pessoas ficaram feridas, algumas em estado grave.
O réu compareceu ao tribunal em uma cadeira de rodas, já que ele mesmo sofreu ferimentos e queimaduras graves, ficando internado por vários meses.
“Extremamente cruel e bárbaro”
O juiz Keisuke Masuda, que pronunciou a sentença de pena de morte, descreveu o ato de atear fogo às pessoas como “extremamente cruel e bárbaro”. Ele mencionou que o réu entrou no local com gasolina, espalhando-a energicamente antes de usar um isqueiro para iniciar o incêndio. O juiz destacou a extrema periculosidade da ação, dada a grande quantidade de gasolina utilizada, ressaltando a brutalidade do crime ao transformar as pessoas em tochas humanas.
Além disso, o juiz falou sobre as 32 pessoas que foram feridas no incidente, mencionando que muitas testemunharam colegas sendo envolvidos pelas chamas e sofreram impactos psicológicos significativos, lutando com sentimentos de culpa e remorso.
O juiz também expressou a gravidade e tragédia da morte das 36 vítimas, descrevendo a situação horrenda no estúdio naquele momento. Ele falou sobre as vítimas sendo rapidamente envolvidas em chamas e fumaça, sem tempo para escapar, algumas se amontoando umas sobre as outras e outras sofrendo de insuficiência respiratória devido ao calor intenso ou intoxicação por monóxido de carbono. O juiz enfatizou que o terror e sofrimento vivenciados pelas vítimas são indescritíveis.
Argumentos da acusação
A acusação afirmou que, embora Aoba sofresse de um transtorno de personalidade paranoico ou delirante, isso teve impacto limitado. Argumentou que, apesar de apresentar delírios, o crime não foi dominado por esses, mas sim por um acúmulo de insatisfações e características da personalidade do acusado.
A acusação também salientou que antes do crime, Aoba sabia que incêndio seguido de assassinato era um crime grave e que ele tinha a capacidade de desistir. Além disso, dois psiquiatras concluíram que Aoba tinha capacidade de entender a natureza criminosa de seus atos, e a acusação defendeu que ele tinha plena capacidade de responsabilidade criminal.
Argumentos da defesa
A defesa alegou que Aoba sofria de um grave transtorno delirante e, portanto, não tinha capacidade de responder por seus atos. Argumentou que a avaliação psiquiátrica da acusação não levou em conta delírios significativos que dominavam a realidade de Aoba, incluindo a crença em uma “organização sombria”.
A defesa destacou que Aoba cancelou sua assinatura de smartphone quatro meses antes do incidente, acreditando ser controlado por essa “organização”, evidenciando a influência de seus delírios. Alegou que ele estava sofrendo com delírios irremediáveis há mais de dez anos e não tinha a capacidade de se conter. A defesa pediu a absolvição por insanidade ou uma sentença mais leve devido à sua capacidade reduzida.
Crimes pelos quais Aoba foi julgado
- Invasão de propriedade: Entrou no estúdio Kyoto Animation em 18 de julho de 2019.
- Incêndio criminoso: Colocou fogo no estúdio, que estava ocupado por 70 funcionários.
- Homicídio e tentativa de homicídio: Deixou 36 funcionários mortos e 32 feridos.
- Violação da lei de controle de armas e espadas: Carregava seis facas no momento do incêndio.
Plano de ataque terrorista em Saitama
Durante o julgamento, foi revelado que um mês antes do incêndio, Aoba foi até a frente da estação de Omiya, em Saitama, com a intenção de cometer um assassinato em massa, mas desistiu.
No interrogatório, Aoba explicou que pretendia informar à Kyoto Animation que eles teriam roubado uma ideia de sua história, o que o levou a esse desfecho.
Ele decidiu não prosseguir com o ataque em Omiya devido à baixa densidade de pessoas na área, o que, segundo ele, não resultaria em um grande incidente.
Inspirado por incidentes passados
Quanto ao planejamento do ataque, Aoba revelou que se inspirou em incidentes anteriores, como um onde gasolina foi espalhada em uma financeira resultando em mortes, e um incêndio criminoso em uma casa de mahjong.
Ele afirmou que, na fase final, estava determinado a ir até as últimas consequências. Além disso, ele trouxe seis facas para o local do crime, antecipando a possibilidade de ser interceptado após espalhar a gasolina, inspirando-se em um incidente de ataque indiscriminado em Akihabara, Tóquio, onde pessoas foram atropeladas e esfaqueadas, resultando em sete mortes.
Foto: Reprodução/JNN
Shinji Aoba filmado por câmeras de segurança antes de colocar fogo no estúdio Kyoto Animation





